Augustinopolis-TO, sexta, 24 de setembro de 2021

O FILHO DE MAQUIAVEL

Minha primeira crônica

10/03/2020 01h44 | Atualizado em: 10/03/2020 01h54


Estava andando pelo Forte do Presépio. Era um dia ensolarado, bem movimentado, uma brisa amena e calma passava pela cidade de Belém do Pará. Meus pensamentos iam tão soltos e distantes: se me perguntassem por onde andava não saberia dizer, na verdade estava esperando o momento oportuno de escrever minha primeira crônica. Sentia que aquela cidade me daria essa dádiva. Gostaria de estar inspirado, de colher algo da vida diária, conteúdo humano.


Foi então que surgiu diante de mim um jovem, negro, morador de rua com mais ou menos a minha idade. Sua aparência ao primeiro lance revela uma pessoa sofrida, triste. Mal ousava balançar a cabeça ou correr os olhos castanhos escuro de curiosidade ao redor. O que esperar desse menino de rua? Provavelmente a sociedade lhe reserva repulsa e repressão e, se tiver sorte, chegará a ser um adulto, tendo em vista que adolescentes negros são as principais vítimas da violência. Ainda mais ele que se encontrava em uma metrópole que há uns dos maiores índices de extermínio da juventude negra e periférica. Como ele, centena de meninos em todo o Brasil se encontra nessa lamentável situação.


Que tipo de adulto ele se tornará? Inocente e indefeso. Muitos passam por ele com um olhar indiferente. Já outros ariscam a dar alguns trocados. Por que tem que ser assim? Que tipo de sociedade vivemos em que as pessoas são tratadas como animais?


Vejo, porém, que ele não passava apenas de um simples morador de rua. Passo a observá-lo. Fiquei curioso, pois o jovem trazia consigo palhas. Em um piscar de olhos vejo-o sentado sobre o chão quente daquela manhã, trabalhando com o material nativo da região. Pergunto-me: o que ele vai fazer? Talvez algo que justificasse a ideia que todo morador de rua é drogado.


Aos poucos a palha ganhava forma naquelas mãos habilidosas e ao mesmo tempo sujas e ásperas. Seus olhos refletiam a arte que ele próprio fazia. E sua boca seca degustava o sabor amargo da vida. O que ele estaria fazendo se não fosse morador de rua? Estudando, assistindo TV, curtindo Belém, sendo feliz. E nós o que vamos fazer a respeito disso? Não seria a hora de pensar um pouco sobre isso?


Após fazer uma linda flor, o menino passa uns instantes na mesma postura admirando sua criação. E em um gesto humilde entrega-a a uma jovem que se encontrava em meio à multidão que o cercava. De súbito, percebi que estou a observá-lo, nossos olhos se encontram ele se perturba, ameaça a abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.


Assim que eu queria a minha primeira crônica: que fosse pura como esse sorriso.

 

 By Elves Felipe


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